Debate sobre reestatização da distribuição é fundamental neste momento
Assista à participação de Ticiana Álvares, diretora técnica do INEEP, em audiência da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados que debateu os preços dos combustíveis:
Vivemos um momento de crise internacional profunda, em que guerras, disputas geopolíticas e a desorganização das cadeias globais expõem a centralidade da energia como questão de soberania. O impacto não é abstrato. Ele chega diretamente ao cotidiano da população por meio da inflação, do aumento dos combustíveis e da insegurança alimentar. Nesse cenário, diversos países têm adotado medidas firmes, incluindo controle de preços, uso de reservas estratégicas e reestatização de setores, reconhecendo que deixar a energia sob domínio exclusivo do mercado significa aprofundar desigualdades e fragilizar suas economias.
O Brasil vive uma contradição grave. Somos um país com enormes reservas de petróleo, autossuficiente na produção de óleo cru e referência mundial em tecnologia de exploração em águas profundas, fruto do investimento estatal e da construção histórica da Petrobras. Ainda assim, permanecemos dependentes da importação de derivados e vulneráveis às oscilações externas. Essa fragilidade não é natural, ela foi produzida por um processo de desmonte, com a venda de ativos estratégicos, refinarias e da BR Distribuidora, que rompeu a integração do sistema energético nacional.
A consequência direta dessa desestruturação é sentida no bolso do povo. Mesmo com mudanças importantes, como o fim da política de paridade de importação na refinaria, o Estado brasileiro perdeu capacidade de intervir no preço final dos combustíveis. Hoje, o controle está nas mãos das distribuidoras, que operam com pouca transparência e grande liberdade para reajustes. Casos recentes mostram aumentos expressivos sem justificativa compatível com os custos reais, evidenciando que o mercado, sozinho, não garante equilíbrio nem justiça.
Diante disso, é fundamental afirmar sem medo que o controle de preços deve ser um instrumento legítimo de proteção social. Não se trata de tabu ideológico, mas de uma necessidade concreta para evitar que crises internacionais sejam transferidas integralmente para a população. Ao mesmo tempo, a reestatização da BR Distribuidora e das refinarias surge como medida estratégica para recompor a capacidade do Estado de atuar sobre toda a cadeia produtiva, garantindo abastecimento, estabilidade e previsibilidade.
A reflexão se fortalece a partir da fala de Ticiana Álvares, diretora técnica do INEEP, apresentada em audiência da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados que debateu os preços dos combustíveis. No campo político, setores da esquerda já se articulam para transformar esse diagnóstico em ação concreta, com a construção de uma frente parlamentar pela reestatização da BR Distribuidora e de outros ativos estratégicos privatizados. A iniciativa encontra-se em fase de coleta de assinaturas entre parlamentares e aponta para uma disputa central sobre os rumos da política energética brasileira e o papel do Estado na garantia de direitos.
SINDIPETRO CAXIAS | 09/04/2026
